Vamos conversar sobre ansiedade no espectro autista?
Ansiedade é uma comorbidade muito frequente ao TEA, e impacta a qualidade de vida de muitos!
A psicoterapia, sempre que a gravidade dos sintomas permitir, é a primeira linha de tratamento para transtornos de ansiedade em indivíduos com TEA (naqueles que não estão no espectro também).
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) também possui evidência para abordar pessoas no espectro, mas algumas adaptações podem ser necessárias:
*Uso de recursos visuais: Agendas, histórias sociais, escalas de emoções e termômetros de ansiedade para auxiliar na compreensão e expressão.
*Concretude e especificidade: Evitar abstrações. Focar em exemplos práticos e situações reais.
*Envolver cuidadores ou pessoas próximas: Para reforçar estratégias em casa e generalizar habilidades.
*Foco em habilidades sociais e regulação emocional: Muitas ansiedades no TEA estão ligadas a desafios de interação social e dificuldade em identificar e modular emoções.
*Exposição gradual: Para fobias específicas ou ansiedade social, a exposição controlada e gradual é eficaz, sempre com suporte adequado.
Também podem ser usadas outras estratégias comportamentais e de relaxamento, como o treinamento de relaxamento muscular progressivo e técnicas de respiração.
E sobre a Intervenção Psicofarmacológica?
Ela deve ser considerada quando:
*Não houver melhora significativa após um tempo adequado de abordagem psicoterápica
*Houver sintomas graves causando sofrimento intenso, prejuízo funcional grave (escolar, social, familiar) ou riscos à integridade
*Houver comorbidade grave que já exija tratamento medicamentoso
E quais medicamentos são utilizados?
*Antidepressivos ISRS: Também são considerados a primeira escolha para o tratamento farmacológico da ansiedade em TEA. Mas é necessário monitorar cuidadosamente os efeitos colaterais. E a resposta pode ser mais lenta do que na população neurotípica.
Mas outros medicamentos também podem ser utilizados em situações específicas, como:
*Alfa-agonistas (Clonidina): Pode ajudar em sintomas de ansiedade associados à hiperatividade, impulsividade ou agitação.
*Betabloqueadores (Propranolol): Pode aliviar sintomas somáticos da ansiedade, como taquicardia e tremores, mas devem ser usados com cautela.
*Antipsicóticos (Risperidona, Aripiprazol): São aprovados para irritabilidade associada ao TEA mas podem ser considerados em casos de ansiedade grave e refratária, especialmente se houver agressividade ou autolesão significativas.
*Benzodiazepínicos: Costumamos evitar em adultos e mais ainda em crianças devido ao risco de dependência, sedação e possibilidade de desinibição paradoxal. Costumo restringir a situações agudas, sob acompanhamento próximo.
Lembrando que um eventual diagnóstico e plano terapêutico deve sempre ser estabelecido com a consulta de uma profissional bem formada. É essencial a avaliação e orientação dos riscos e benefícios em conjunto com a família e o paciente (quando possível), além disso qualquer tratamento exige um monitoramento regular da eficácia e dos efeitos adversos.
Gostou? Se quiser que eu escreva um pouco mais e revise algum outro assunto, pode me avisar 😘
Referências:
1. NICE Guideline NG93: Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management. National Institute for Health and Care Excellence, 2018. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng93
2. Volkmar, F. R., & McPartland, J. C. (2014). Autism and Pervasive Developmental Disorders. In M. Rutter, D. V. M. Bishop, D. S. Pine, S. Scott, J. Stevenson, E. Taylor, & A. Thapar (Eds.), Rutter’s Child and Adolescent Psychiatry (6th ed., pp. 638-652). Wiley-Blackwell.
3. Sukhodolsky, D. G., et al. (2013). Cognitive-behavioral therapy for anxiety in children with autism spectrum disorders: A randomized, controlled trial. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 52(11), 1162-1171. DOI: 10.1016/j.jaac.2013.08.006

